Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Concurso

Eba! Meus poemas foram pré-selecionados no 8º Concurso Literário Guemanisse de Contos e Poesias. Que eu continue tendo sorte!

Terça-feira, Outubro 27, 2009

A construção do verme


O verme é algo de histórico,

talvez humanamente eufórico.



E desconhece a divina retidão,

pois no corpo uma parte dança a outra.



No barro ou fora, é inconstante

testemunha, vai sempre adiante.



E o passado que o deixa

Nem mesmo é seu. Invade-o



toda terra, todo germe,

presente áureo dos ciprestes



e ele com a única escolha

de partir, torcer, girar.



Os biólogos crerão natural

o subterrâneo adubado e pronto.



E é assim que se faz. Mas,

na realidade, está preocupado.



Desde a tangente do anel até o céu,

a angústia natural de quem sabe.



“E se em paralelo surge um sol

irmão ao outro, determinado



a se juntar à quadrilha do cosmo,

iluminando os vãos fundos



e conquistados de minha casa?

Será que errei? Será que serei?



Pois o que será um futuro cheio

de luz? Vendo não vejo,



e sem lugar a se ganhar,

nota obscura do destino,



vaguearia finito e terminado.

Compadeço dos colegas viris



e marciais que do vazio

negam a herança e estância.



Eis o fim do mundo pelo excesso

de voz, de brilho, de olhos.”



E imaginando mundo mor­to

também pensou sem lógica



na explos­ão do verbo nome que

carrega, querendo ser livre.



“E assim me restituiria o caso

a longa disposição bailarina,



que encobre a ideia de um apelido,

que tenho que continuar



e não posso parar num nome meu,

mas dançá-los todos, vários.”



Na verdade o verme é Deus vivo,

como Saturno em seus anéis,



e se esgueira do abismo um minuto,

espiando a atividade absoluta dos corpos.



No zelo excessivo, na ameaça solar,

o verme é quem vai se preocupar

em manter rico, úmido e escuro,

um simples e bom futuro.

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Dicionário

Um esforço coletivo da galera de Poética para fazer um dicionário diferente. Vale a pena conferir!
http://www.dicpoetica.letras.ufrj.br/

Vejam também o convite para o evento de lançamento.

Terça-feira, Agosto 25, 2009

"Este é o paradoxo do amar, só vigorar na proximidade, mas isto não é uma questão de individualismo e isolamento. É a nossa condição de jamais podermos ser senão o ser que somos e só como proximidade podermos ser o amado.
A proximidade não é negativa, mas a possibilidade máxima de poder afirmar no amar a diferença que é o amado. Amar não é anular, mas afirmar originariamente aquele que sendo me é o mais próximo. Só assim podemos co-habitar na proximidade do coração. Amar é co-habitar o coração. A proximidade é mais do que compreender o outro, é aceitá-lo como o que é e não pode deixar de ser" (1).

Referência:
(1) CASTRO, Manuel Antônio de. "Originário e época / O círculo poético". Internet. Disponível em http://travessiapoetica.blogspot.com/2009/08/originario-e-epoca-o-circulo-poetico.html. Acessado em 25/08/2009.

Terça-feira, Maio 12, 2009

A visão terrífica

A VISÃO TERRÍFICA


Está dentro de nós este debate

e possibilidade, de que falam arfando

as costelas. Guardam fundo, vates,

os ocasos de que a Fama gosta tanto.

Longitudinal, espelho sem brilho

e quase sem essência, amaldiçoo-te

pela teimosia tumular. Pouco de Paraíso

tens; apenas o que Deus de ti criou

foi a sentença do abismo generoso.


Pois não é sem outra vista que o verso

escuta o costelar. Cai no pesadelo pleno

de todo o tempo; homem algum o conhece,

mas sempre o habita no corpo perene.

Impõe essa poética que passa pela pele

em forma de não e ansiosa de desfecho.


Ele está cantando o atropelamento

repetido, que nos embaralha da forma

errada e nos machuca o sangue bento.


Ele está cantando a angústia da vida

futura, que não foi, mas ainda pode ter sido.

A carne erma do espírito, abandonada,

vindo contar, seca, a senda inexplorada.


Ele está cantando a artéria em trânsito,

termodinâmica, tocando em frêmito

os homens meio cheios de doenças,

sem paz que ao coração pertença.


Ele está cantando a virtude noturna

que mora no eco surdo dos discursos.

Sofre a longa diferença da política,

bem lógica, analgésica e complexa.

Irônico, além de todo luto, sente a próxima

bomba. Não vai explodir agora, de mansa.


Ainda na iminência da completa demência

e cesura da querida urdidura, sou reverência.

Se me entrevê o terror inaudito, a palavra

me mantém num momento, minha amiga.

Materna, me alça em corpo e diz: me siga.

Quinta-feira, Abril 16, 2009

O lugar do movimento em repouso

Quando um poeta, aqui tomado em sua relação com a poíesis, de-forma ou in-forma a obra de outro poeta, não há problema, geralmente, do ponto de vista teórico e crítico. É um procedimento normal e esperado da historicidade da arte, enquanto diálogo. O que numa obra foi posto em obra perpetua-se obrando em outra obra. Isso acontece quando um "clássico" reafirma sua permanência pela presença atualizada em obras diferentes. O âmbito da arte, desde o Romantismo, é ditado pela criatividade e pelo gênio do artista, que tanto melhor quanto capaz de, num mesmo movimento, integrar e criar sobre a tradição. Ainda que haja ressalvas a ser feitas nessa compreensão, que até hoje possui muitos defensores, a vemos radicalmente diferente em relação aos estudos literários, filosóficos e científicos, que hodiernamente se confundem e sorvem ideias de um paradigma comum.

A postura a que nos referimos é a da necessidade da conformação ao argumento de autoridade. Academicamente, é o famoso "quem disse?/de acordo com quem?". Essa é a inclinação que gerará todo tipo de corrente de pensamento, os chamados "ismos". Aqui não há lugar para nenhum pensamento radicalmente criativo, pois ele, no final de contas, sempre se apoia no testemunho e visão de outros. Ora o pensamento de um autor é cristalizado nas chamadas terminologias, os chamados jargões, e há o efeito "colcha de retalhos", ora se tenta esquivar a qualquer filiação, seja na legitimação via lógica ou ideologia, seja na tentativa de absorver vários desses discursos distintos. Imaginem se a poesia precisasse citar para se legitimar...

Em todo caso, perde-se nesse tipo de requisição qualquer possibilidade de desenvolvimento de um trabalho genuinamente próprio, no sentido de, ao invés de "usar" as autoridades autorais para chegar a algo novo, partir em busca, nesses autores, de um ponto de diálogo que ajude o pensador/pesquisador/aluno a ser posto em questão. Aí a aprendizagem já é tomada como caminhada de vida, desabrochar destinal do que cada um é. E, claro, não há por que não buscar concretizar essa caminhada pelo estudo dos grandes pensadores. Mas também não há por que achar que a formação do humano de cada um passa necessariamente pelo conhecimento do texto e/ou da chamada doutrina de determinado(s) autor(es), que, querendo ou não, já partem da abertura que a obra oferece para se estabelecer tal interpretação corrente.

Daremos um exemplo: o alvoroço causado pela interpretação de Nietzsche sobre a mundividência grega em O nascimento da tragédia. Lá apresenta-se uma rica interpretação da arte, não só da tragédia grega, que vai de encontro ao entendimento da época –- o tal classicismo dos gregos. E ele o faz sem qualquer necessidade de respaldo teórico ou até mesmo textual em sua obra, ainda que, claro, esteja ciente da interpretação normativa da Grécia. Não é à toa que mencionamos Nietzsche: até certo ponto, ele aponta contra o princípio acadêmico-científico e mais para o poético-pensante.

Porém, simplificou-se demais a questão. Tentarei surpreendê-la de outra maneira. A aprendizagem é uma experiência concreta, concresce conosco. Ela concresce à medida que nos abrimos para aprender: em grego, máthesis, o dar-se como aprender. Essa experiência se situa numa dimensão poética, já que faz surgir, manifesta um novo sentido como aquilo que passa a existir. O que emana desse âmbito, então, não pode ser um processo mental em que uma informação é reproduzida como num espelho. Trata-se de uma disposição completa, em que um novo horizonte se configura. Você é transformado. A repetição de informações e conceitos, se não pensados e apropriados numa dinâmica singular e criativa, nunca é livre para si -- pelo contrário, é escrava da requisição auto-imposta de ter a urgência de pensar retirada de si mesmo e apaziguada na compreensão superior de outros. Muito mais do que um mecanismo de poder, essa tendência nos estudos instituídos aliena os homens não só em relação à essência criativa e questionante de todo "estudo" como pensamento, mas a si mesmos, já que a essência do pensar torna-se aí a essência do homem como ser.

Por essas considerações, penso que, ao interrogado pelo "de acordo com quem?", se deva responder "eu!", se assim for o caso. Para esclarecer mais a questão, não estou fazendo manifesto contra a pesquisa acadêmica. Até porque, sob uma forma muito mais subreptícia, esse comportamento é emulado em outras esferas, além da universidade. Só se trata de sublinhar que o que há para ser pensado no homem e no real não está, de nenhuma forma, dado ou delimitado pelo(s) paradigma(s) oficial(oficiais) da academia. Ele está dado, sim, na forma do não-pensado, que é o que não se resolve ou não se resolveu como pensamento, que nele é mantido na forma de mistério e questão. Mas mesmo para saber um conceito, deve-se entender que já comparece nele, ele não é externo, mas diz-e-não-diz algo sobre o que se é. Ainda resta perguntar pelo que não é, pelo que o conceito não diz.

Terça-feira, Março 03, 2009

Ascensão ou ascendência

Há alguns anos que um raciocínio me deixa bastante incomodado.
Quando a oferta de produtos no mercado interno é alta, os preços caem. Já quando a oferta de produtos no mercado interno é baixa, os preços aumentam. Essa é uma lógica coerente, de acordo com a demanda dos consumidores. Mas a lógica econômica do governo brasileiro, há muito tempo, é de exportar o melhor e o máximo possível.
Isso é algo engraçado, me lembro do barbudo Marx, comentando a separação entre o trabalhador, seu instrumento e o produto de seu trabalho. Aqui entra em jogo algo diferente: o produto feito em terras brasileiras é disponibilizado para ser comprado no mercado externo, completamente especulado. O que sempre me chamou a atenção é a volta terrível que a acumulação de capital tem que dar, a partir de superávits de balanças comerciais, pra trazer a prosperidade ou a decadência. Dentro daquele sistema antigo do capitalismo, parecia bem simples que a ruína do sistema de valor do século XIX estava próximo: mais produção, mais trabalhadores explorados e ele se autodestruiria. Porém, não creio que isso seja possível ou visível, da maneira como a lógica econômica se estrutura hoje. Vamos à volta: o país produz cada vez mais, bate recordes de safras e tudo só parece se encaminhar para um futuro grandioso. Contudo, será que vemos essa opulência realizada concretamente? Em nosso cotidiano, nas coisas que culturalmente tomamos como importantes, como as leis, saúde, educação.. Os resultados positivos da economia brasileira só vêm quando entupimos os países industrializados de produtos e nos pagam para tal. Produtos como comida, roupa, até mesmo energia. Assim, os produtos de menor qualidade e descartados pelo mercado exterior, ou que não chegaram nesse circuito, são postos à venda no mercado interno a preços elevados, como se pudéssemos pagar ou não precisássemos. Os produtos precisam sair, virar dinheiro e depois voltar para o país, para.. o quê? Pra que essa volta toda? Há, sem dúvida, motivos muito justificados para isso: para pagar dívidas e contas no exterior, para poder importar aquilo de que supostamente precisamos. Esses trâmites intra, inter e supranacionais acabam por deixar países como o nosso refém desse esquema traiçoeiro. Nenhum deles sai do lugar: é sempre a mesma coisa. O dinheiro excedente é utilizado em pequenas reformas e facilitações da vida, de forma que as coisas não sejam tão ruins. E a acumulação só aumenta, não porque não haja dinheiro sendo repassado, mas porque o dinheiro repassado só é repassado porque ainda mais dinheiro está sendo ganho, e por aí vai. Os deputados não estão ficando mais pobres porque o nível de analfabetos ou de crianças mortas está diminuindo. As taxas são comemoradas porque mostram uma realidade: "é o que está acontecendo". O que não se pensa é que é isso que o sistema político-econômico pode fazer naquele momento, o que não quer dizer que "é o que e como pode ser feito, temos é que agradecer". Termina por abafar o questionamento e a possibilidade de mudança. Como comentei em outro post sobre isso, essas taxas, ganhas e perdas se sucedem todo dia: muitos de nós se zumbificam diante dos jornais, diariamente, para ouvir a mesma coisa. A pergunta que torno a repetir é: para onde, para quê? O que estamos esperando que aconteça? Algo vai dialetica e progressivamente se resolver num futuro longínquo e impossível? A vida não é um brinquedo, um jogo que a gente pode jogar de qualquer forma e ver o que acontece, que possamos deixar em espera. Essa forma de viver e nos regular foi imposta ou imaginada por poucos, e ainda é defendida e operacionada por poucos. Mas somos tão jogados nessa lógica que acabamos aceitando e tendo que viver dessa maneira. A maior parte dos derrotistas brasileiros também se incomoda com alguns desses paradoxos, mas acaba por enterrar a questão procurando um referencial diferente, algum lugar onde "as coisas dêem certo". O que está em jogo, fundamentalmente, é a maneira como nos determinamos no nosso percurso histórico. Isso está bem longe da nossa compreensão, porque nos habituamos a pensar em liberdade por meio da Política e da Economia: sou livre para pensar e agir (perante as leis) e livre para comprar (de acordo com meus recursos). Isso permite que as leis sejam feitas para que todos possam comprar o que quiserem: o importante é o relativo bem-estar do indivíduo, suficiente para ele comprar e vender. A minha pergunta continua a mesma: qual o sentido de comprar, qual o sentido de produzir, qual o sentido de ter liberdade para comprar, ter opiniões e expressá-las? Ninguém sabe pra que serve a liberdade, porque não se sabe o sentido de viver. Mesmo que se respondesse que a liberdade é para viver, não se sabem os parâmetros de viver, o que é necessário, se é bom ou ruim, do que precisamos, quais seus resultados. Ainda que possamos arrogar nossas ideias como muito avançadas, continuam a ser feitas distinções entre sexo, cor, idade, opção sexual. Onde está a liberdade político-econômica sem paridade de salários para o mesmo serviço prestado? Esse tipo de contradição mostra que marchamos para lugar algum. Estamos cheios daquele nada metafísico, que é a negação de toda vigência e possibilidade de desdobramento. Nos embriagamos da face menos viva da Morte, tomando-a por Deméter!
Não quis apontar dedo algum nesse texto, apenas tentar observar e criticar a engenhosidade do capitalismo a que estamos tão acostumados. Na verdade, é completamente impossível responsabilizar algo/alguém, ou simplesmente identificar a causa do problema. Meu entendimento pessoal é o de que se os países mais prósperos, afiados e importantes na máquina econômica o são não por nenhuma grandiosidade de seu povo, mas possivelmente por uma soma inacreditável de fatores e desvios, que ainda assim guarda sentido. Eles o são à custa de muitos outros. É curioso como o fato de você nascer em determinado país já pode te oferecer e tirar tanta coisa. Essa ênfase na diferença se mostra gritante, angustiante. As ideias de uma união para além de todos os países não é nova, porque é também essencial e claro que essas distinções que tomamos para nós como países, nações e estados são bastante abstratas, por mais que também consigamos fazer delas parte de nós [notando-se que essa apropriação nunca é da ideia do país ou do estado, mas da experiência e participação determinada no destino do homem, a que hodiernamente chamamos "cultura"].
Para que tanto dinheiro, o que ele faz, o que ele compensa? O que ele significa e tira de dentro de mim, o que me torna? Ou o que ele repele, bloqueia, interrompe? Com o assalto de tantas coisas, cores, atividades, obrigações e vozes é-nos furtado o pesadelo de ser, largados na entidade de tantos entes, a única mudança que conhecemos é a substituição. Substituição de telefones, de empregados, de esposas, de filhos. Substituição de ideias, de sentimentos, de paradigmas. E continuamos no mesmo lugar, comer é difícil, estudar é difícil, sentir é difícil. Mas o mais terrível é também o mais profundamente necessário: criar e estar na criação. Principalmente, porque envolve a única forma de destruição, a autêntica, em que coisa dança porque muda, ela nos escapa e surpreende, nem domina, nem se faz dominar, apenas retorna para si mesma e nos acena a partir da unidade. Não há desigualdade na genuína diferença: não que se exija igualdade ou parta dela, mas que o igual nunca é essencialmente similar, o fundo identitário não é a função.

Desde há muito, carregamos o voo icárico. Somos o voo icárico. E a única lei do voo é a de liberdade para o voo, para o lugar transbordante de possibilidades que nos alimenta. Voamos para o princípio.

"Na concepção chinesa, é melhor possuir muito pouco do que demasiado, e é melhor deixar coisas por fazer do que fazê-las em exagero, porque, embora não se possa ir muito longe procedendo assim, certamente caminhar-se-á na direção correta. Assim como o homem que quer ir sempre mais e mais longe em direção ao leste acabará por chegar ao oeste, aqueles que acumulam mais e mais dinheiro a fim de ampliar sua riqueza acabarão na pobreza. A moderna sociedade industrial que, em sua tentativa contínua de elevar o 'padrão de vida' faz descrescer a qualidade da vida para todos os seus membros, constitui uma ilustração eloquente dessa antiga sabedoria chinesa"
– Fritjof Capra, O Tao da Física