Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010
Escolhas
É irônico pensar isso hoje em dia, mas houve uma época em que queria ser médico. Desde sempre fui puxado para dentro (e empurrado, também, pelos meus pais) do mundo dos remédios alo e homeopáticos, dos exames, das bulas e recomendações. Mundo de branco, de esterilização, analgésicos e relativa tranquilidade, até que alguém muito doente rompesse o silêncio com seus gritos de agonia. Os nexos desse mundo especial são os médicos.
Pela minha alergia dermatológica e pela rinite, pelos dias de vergonha, desespero, ardência e perda total de esperança, pensei que estivesse sensibilizado para ser um médico. "O essencial é a sensibilidade", eu poderia declamar então, me considerando não só apto, mas em vantagem, pela minha experiência pessoal. Sabia o que era estar nas filas de espera, estar do outro lado da mesa olhando para o médico, esperando anunciarem uma descoberta que escapou aos olhos dos anteriores. E a angústia crescente diante da realização de que o meu conhecimento farmacológico ia se expandindo, vendo muitas vezes repetições. Um médico dizia e passava o que o outro já tinha recomendado, fazendo, no máximo, algumas adaptações. Em algumas ocasiões, vinha com algum creme ou loção novos, caríssimos, mas em que ele confiava muito. Eu agradecia a todo o cosmo e comprava o remédio, para perceber pouco tempo depois que era mais um cosmético que nada fazia além de não piorar a minha alergia (mas também não fazia melhorar).
No finalzinho da adolescência, compreendi o quanto não gostava de tudo isso. Claro, quem gostaria? Quer dizer, aos meus olhos, parecia um pouco ridículo: os médicos seguiam uma determinada cartilha (no meu caso, queria dizer antialérgicos + cortisona tópica + cortisona oral e, no caso de alergistas, vacinas), mas ao mesmo tempo adoravam criticar o trabalho do outro, dizendo que tal médico diagnosticou mal, que tratou inadequadamente, que tal laboratório é ruim e só confia em um deles. Como seria estudar e trabalhar nesse meio? Talvez das coisas que mais me incomodava era quando um médico não ouvia ou parecia não ouvir o que dizia. Eu fazia todo um esforço interpretativo, tentando apresentar os acontecimentos da melhor forma, ansiando para ter minhas dúvidas dissipadas e ser tranquilizado. Em vez disso e sem nenhuma apreciação, o médico dava, austeramente, sua opinião, o que eu deveria fazer e evitar e quando voltar no consultório. Qualquer explicação – que eu precisava – era arrancada dele à troca de mais alguns minutos de contemplação daquele rosto inabalável, que parecia estar vendo e lidando com algo muito pouco digno de nota. Sim, você está ali, pois falar do que incomoda e de suas enfermidades exige certo cuidado e intimidade. Mas, sem aviso, é transformado em coisa, no paciente das 15:30.
No que esse quadro se desenhava para mim, via que não tinha tanto a ver com a profissão quanto pensava – ou que, para fazer dela a minha cara, exigiria muito de mim. A autocobrança seria jogada nos céus, na tentativa de ser o melhor médico do mundo, para que nenhuma pessoa que tratasse fosse jogada na mesma teia em que eu havia sido, para que não depositasse a esperança (e o dinheiro) em mim em vão. Para que eu conseguisse ser próximo das pessoas sem ser consumido pela culpa de não poder, saber ou conseguir ajudá-las. Para que eu também pudesse ajudar aos meus colegas (e eles me ajudarem) a não cometer erros. Para que, se eu ainda não estivesse curado (ou melhor, ao menos), conseguisse curar a mim mesmo, mostrando aos outros médicos como precisei me tornar médico para resolver meu problema.
Não sei se, no meio disso tudo, seria feliz.
Atualmente, ainda estou na mesma luta, mesmo que tendo me decidido por professor – o que rende sem dúvida outro post. Agora quico de gastro em gastro e otorrino em otorrino, além de dermato em dermato e alergista em alergista. É a indicação dos amigos, dos familiares, de outros médicos, de outras fontes. Sempre renegando o presente, na esperança do amanhã sem moléstia. E nunca se põe um horizonte concreto, nunca se realiza esse processo de melhora, de redenção. Apenas tento esbarrar no graal, tateando. Não é que desejasse um caminho cristalino e seguro para a estabilidade, porém queria um pouco mais de tranquilidade, sem jogar tudo para o alto de um dia para outro, sem me redefinir a cada minuto, menos fio da navalha. Queria enxergar a melhora, ver os esforços meus e dos tratamentos se realizando.
Talvez essa seja uma luta similar de todos os alérgicos. Sei que a minha não é comum nem branda, ainda assim também tenho direito a acreditar. Direito a crer nas minhas possibilidades e em suas edificações. Se for esse o caso, deixo aqui o meu registro para outros lerem e se sentirem (se o texto permitir) irmanados.
Mesmo na mesma luta, mesmo o meu incômodo com a alergia continuando, ao menos não mais deixo de sair de casa (só em casos realmente extremos), nem de sorrir, nem de fazer as coisas que preciso fazer. É claro que não vou pular de alegria se alguém quiser tirar uma foto, ou quando alguém estranhar a minha cor irregular ou o meu pigarro. Sim, há momentos de melhora e de piora, e os meus quatro anos de graduação me deram uma falsa impressão de que finalmente tinham dado frutos os anos meus e dos meus pais torcendo pela minha melhora. Saíra do quadro de crise e não tinha mais nenhum eczema visível ou, ao menos, significativo. Pouco tempo depois, ela voltou a se instalar lentamente e sem remorso. Quando a sua pele coça e você começa a pegar coisas na sua frente para alimentar o desejo de coçar... Quando isso se torna um hábito, além do dano atestado, torna-se crônico (e desesperador).
Sem saber muito bem o que fazer nem o que esperar, continuo tentando.
Segunda-feira, Novembro 23, 2009
Noam Chomsky
Segunda-feira, Novembro 09, 2009
Concurso
Terça-feira, Outubro 27, 2009
A construção do verme
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Quarta-feira, Setembro 16, 2009
Dicionário
http://www.dicpoetica.letras.ufrj.br/
Vejam também o convite para o evento de lançamento.
Terça-feira, Agosto 25, 2009
A proximidade não é negativa, mas a possibilidade máxima de poder afirmar no amar a diferença que é o amado. Amar não é anular, mas afirmar originariamente aquele que sendo me é o mais próximo. Só assim podemos co-habitar na proximidade do coração. Amar é co-habitar o coração. A proximidade é mais do que compreender o outro, é aceitá-lo como o que é e não pode deixar de ser" (1).
Referência:
(1) CASTRO, Manuel Antônio de. "Originário e época / O círculo poético". Internet. Disponível em http://travessiapoetica.blogspot.com/2009/08/originario-e-epoca-o-circulo-poetico.html. Acessado em 25/08/2009.
Terça-feira, Maio 12, 2009
A visão terrífica
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